Sob o solo de uma das áreas mais movimentadas de Salvador (BA), uma parte importante da história do Brasil começa a ser revelada. A confirmação da existência do antigo Cemitério dos Africanos do Campo da Pólvora, localizado onde hoje funciona o Complexo da Pupileira, trouxe à tona memórias que permaneceram soterradas por quase dois séculos e reacendeu o debate sobre preservação, reparação histórica e valorização da ancestralidade africana.
A descoberta representa um marco para a memória afro-brasileira e para o reconhecimento da contribuição dos povos africanos e da diáspora africana na formação do país. O local recebeu, durante aproximadamente 150 anos, os corpos de milhares de africanos escravizados, seus descendentes, indígenas, pessoas empobrecidas, encarceradas e participantes de importantes movimentos de resistência negra.
A Fundação Cultural Palmares acompanha as discussões sobre a preservação do sítio arqueológico e a continuidade das pesquisas, entendendo que o resgate dessa história está diretamente ligado à sua missão institucional de proteção e valorização do patrimônio cultural afro-brasileiro.
Em entrevista concedida à Fundação Cultural Palmares, a arqueóloga e antropóloga Jeane Dias, responsável pelas escavações que confirmaram a existência do cemitério, explicou que o espaço era administrado pela Santa Casa de Misericórdia da Bahia e funcionou como o primeiro cemitério público da capital baiana.
“O principal grupo sepultado ali era formado por africanos escravizados. Mas também temos registros de indígenas, pessoas pobres, encarceradas e insurgentes. Estamos falando de lideranças da Revolta dos Búzios, de pessoas que morreram em decorrência da Revolta dos Malês e de participantes da Revolução Pernambucana que também foram enterrados naquele espaço”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, embora fosse conhecido como cemitério, o local refletia as desigualdades e violências impostas à população negra durante o período escravista.
“Chamamos de cemitério, mas, na verdade, era um depósito de corpos”, destacou.
Uma história que voltou à superfície
A localização do antigo cemitério foi identificada pela arquiteta e urbanista Silvana Olivieri durante sua pesquisa de doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA).
O interesse pelo tema surgiu após a pesquisadora tomar conhecimento da existência de um cemitério semelhante em Belém (PA). A partir daí, iniciou uma investigação sobre possíveis espaços destinados ao sepultamento de africanos escravizados em Salvador.
“Comecei a pesquisar e encontrei mapas do século XVIII que indicavam a localização do cemitério. Depois, localizei outros documentos, livros e registros que confirmavam onde ele estava e o que havia acontecido com aquele lugar após sua desativação”, explicou.
A pesquisa revelou que o Cemitério dos Africanos do Campo da Pólvora funcionou por cerca de 150 anos, até ser desativado em 1844. Com o passar do tempo, o local desapareceu da paisagem urbana e também da memória coletiva da cidade, tornando-se mais um exemplo do apagamento histórico que marcou a trajetória da população negra brasileira.
Escavações confirmaram vestígios humanos
As escavações arqueológicas realizadas em maio de 2025 confirmaram a existência do sítio. Os primeiros vestígios humanos foram encontrados poucos dias após o início dos trabalhos, incluindo ossos e dentes localizados a aproximadamente três metros de profundidade.
Para os pesquisadores, a profundidade dos achados indica que o local foi progressivamente soterrado ao longo dos anos, contribuindo para o desaparecimento físico e simbólico daquele espaço de memória.
As estimativas apontam que mais de 100 mil pessoas podem ter sido sepultadas no local durante seu período de funcionamento, o que faz do Cemitério dos Africanos um dos maiores acervos de remanescentes humanos de pessoas negras escravizadas das Américas.
O sítio arqueológico já foi homologado e registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reconhecimento que reforça sua relevância histórica e cultural.
Memória, reparação e reconhecimento
Para as pesquisadoras, a descoberta vai além da arqueologia. O trabalho representa uma oportunidade de devolver dignidade e visibilidade a milhares de pessoas que tiveram suas histórias apagadas ao longo do tempo.
“Estamos trazendo esses indivíduos de volta para a escrita da história da cidade e do país. Esse é um debate sobre memória, reparação e dignidade diante de toda a crueldade e desumanização sofridas por essas pessoas”, ressaltou Jeane Dias.
A arqueóloga destaca ainda que compreender a história da escravidão e seus impactos é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e consciente de seu passado.
Atuação da Fundação Cultural Palmares
A Fundação Cultural Palmares foi convidada a integrar as discussões sobre o resgate e a preservação do Cemitério dos Africanos justamente por sua atuação histórica na proteção da memória, da cultura e do patrimônio afro-brasileiro.
De acordo com a diretora do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro (DPA), Cida Santos, a descoberta dialoga diretamente com a missão institucional da Fundação.
“A Fundação Cultural Palmares participa desse movimento porque tem como compromisso a proteção e o resgate da história da nossa ancestralidade. Essas lideranças e essas pessoas fazem parte da trajetória do povo negro brasileiro e da construção do país. Preservar essa memória é garantir que ela não seja novamente apagada”, afirmou.
Segundo a diretora, a continuidade das pesquisas arqueológicas é fundamental para ampliar o conhecimento sobre o local e assegurar que esse patrimônio histórico receba o reconhecimento e a proteção necessários.
“A Fundação Cultural Palmares, juntamente com outras instituições parceiras, busca dar visibilidade nacional a essa pauta para que as pesquisas avancem e para que possamos preservar a memória histórica do nosso povo. Estamos falando de um espaço que guarda parte importante da história da população negra brasileira”, completou.
Ao emergir do silêncio imposto por décadas de invisibilização, o Cemitério dos Africanos do Campo da Pólvora transforma-se em um símbolo de memória, ancestralidade e resistência. Mais do que revelar vestígios do passado, a descoberta reafirma a importância de reconhecer, preservar e valorizar a história dos povos africanos, afro-brasileiros e da diáspora africana que ajudaram a construir o Brasil. Henrique Bertoldo, da FP
